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Domingo, Junho 04, 2006
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Domingo, Abril 30, 2006
a vida é engraçada os desapontamentos são tantos. são tantos os buracos e as falhas. tudo está perfeito e imperfeito ao mesmo tempo. basta uma mudança de olhar, de clima, de expectativa para tudo se transformar. como é que uma linha tão pequena pode separar tudo assim? tanto assim. a loucura e a genialidade. a alegria e a tristeza? o amor e a raiva?
estamos no mar, e somos completos, os sorrisos dizem tudo. não precisamos de mais nada. o mundo é tudo aquilo ali. o mar e a gente. flutuando de sorrisos no verde esmeralda ipanemense, tantas coisas escondidas, e fingimentos sinceros para esquecer o que ficou mal resolvido. mas estávamos ali de verdade. e nada mais existia, nada nadinha nada. eu não saberia existir em nenhuma outra história fora dali. eu só existia naquele deslumbre, da luz do sol que embeleza o mar, com suas marcas douradas, no contorno do dois irmãos. numa euforia da energia perfeita da água do mar. da conexão estabelecida no ponto mais energético de toda a cidade.
saudades enormes no meu peito. saudades de estar com quem sabe sentir e ver o mar como eu. de quem sabe mergulhar ali e ver a benção e a sorte que é poder mergulhar neste mar. saudades de quem gosta de estar comigo nas menores coisas. nos programas mais banais. saudades de quem me escolhe, escolhe a noite comigo. saudade de quem conhece a solidão da cozinha e suporta o calor para dividir o momento comigo. saudades enormes daqueles com quem consigo estar em silêncio - ah, são tão poucos. saudades de falar verdades sem me sentir ridícula. saudade de uma cumplicidade que não encontro mais.
encontro flashes dela por aí. numa noite aqui, num pôr do sol ali, num mergulho do mar aqui. mas são só flashes, em algum erro que ainda não consegui identificar um movimento errado leva tudo para o lugar errado. e aí, aos olhos dos outros - e talvez mesmo aos meus - não sou mais quem eu sou. sou uma versão antiga, de esteriótipos, um clichê, que não aguento mais ser.
e aí aquele amor imenso vira ódio. ódio que não reconhece no corpo uma vez tão desejado a sua paixão. evito olhar nos olhos. são eles que escondem os segredos. são eles que me afirmam certezas que nunca são concretizadas. são as portas da minha ilusão. quando me contam esses segredos nunca ditos com palavras, fico desnorteada e entrego de mão beijada o que deveria guardar em cantos escondidos dentro de mim: a minha devoção.
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Quinta-feira, Abril 13, 2006
o telefone tocou, ela se levantou da cadeira e no escuro foi tateando tentando econtrar a saída. uma leve excitação corria pelas suas veias. tinha já perdido toda a determinação do dia anterior. logo ao acordar se sentiu mais instável, como se um vento forte batesse por ela constantemente, balançando seus joelhos. tentou se concentrar, tinha na cabeça decoradas as posturas que deveria aplicar, buscou injetar táticas, estratagemas, alguma pitada de comportamento racional no seu jeito instintivo e emotivo de ser.
e de repente a hora chegou.
foco. um, dois, três. empurrou a cortina pesada do cinema leblon. vestiu sua cara séria. compenetração.
mas do outro lado, com uma pipoca na mão, tão imediatamente e na maior naturalidade, foi recebida com um sorriso tão sincero e encantador que foi-lhe impossível aplicar qualquer tática que exigisse algum tipo de frieza ou descaso. foi acolhida num abraço carinhoso que comprovava o sorriso. e então já numa entrega de quem não consegue muito esconder seu coração, com os braços compridos abraçou com firmeza amorosa. dando o beijo aonde costumava dar. no cangote.
....
o filme corria na tela, e ela desconectada existia nesse estado entre a solidão e companhia que só no cinema conseguimos atingir. não é nem como se sentir solitário numa multidão em qualquer outro lugar, porque ali por maior que seja a distração e a consciência de sua condição singular sempre existe também uma leve atenção naquilo que acontece na tela. de algum modo a história faz parte de você, assim como faz de todos outros dentro da mesma sala escura. então se está sozinho ma non troppo, acompanhado mas nem tanto. é que no cinema as linhas que dividem as coisas ficam menos nítidas, tudo parece existir num intervalo entre dois opostos.
a medida que o filme falhava e não conseguia envolvê-la o que acontecia ao seu redor começava a ganhar espaço na sua cabeça. tudo começou quando a música que lhe era tão familiar arrancou com violência os seus pensamentos da tela e levou-os para outro lugar. aos poucos foi voltando mas ainda muito distraidamente também tomava consciência do que estava a sua volta. e aí de repente o perfume veio de longe e preencheu suas narinas. foi como nas cenas de desenho animado - ele veio em forma de dedo capturá-la, e a levou flutuando pelo queixo ao encontro do seu passado. tanta confusão e idéias de impossibilidade, de erros constantes, um cansaço tão grande com o qual ela não sabe mais lidar a fizeram querer correr de volta ao filme. tentou mas continuou no meio do caminho, presa entre a vida na tela e a sua, o claro e o escuro, o vazio e o preenchimento.
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Segunda-feira, Março 06, 2006
depois de tempos descobre-se que de poços secos só nasce aquilo que a gente inventa. e eu sou boa de inventar. mas já cansei muito disso, agora quero inventar em outro lugar.... em campos soltos, prédios de azulejos antigos, em meninoscavalos. então peguei mala e cuia e vim para outro lugar. hoje o tempo virou, o vento veio me trazer de volta. sorri num sorriso feliz me reconhecendo..... agradeço às deusas. vários recomeços. depois do carnaval que levou ao extremo, encontro agora o rumo, o leme, há mais de um ano abandonado... vamos ver no que dá.....
and there she goes again......
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já que não sei escrever continuo escavando coisas perdidas por aí.....
eu quase te beijei
não beijei porque não seria por desejo do coração. mas para entender a tristeza da decepção que entrou dentro de mim
o tempo pode ser de cura. de recuperação. se for isso, peço desculpas. mas é que eu não entendo muito não.
existe um plano? é uma vontade? é necessidade?
e por que? como? quais os senões?
é medo de viver. é medo de amar. é medo de sofrer? é tudo ao mesmo tempo? mas o que é o medo? a vida é melhor com ele?
não seria melhor to move on?
eu sou um tudo.
e ao mesmo tempo um nada.
não sei mais que palavras te dizer. realmente, acho que vc não me vê. não demonstra ao menos. diria...
"............"
actually, honestly, i dont care much.
mas morro de curiosidades. ou talvez ligue ainda.
mas sei porque eu ligo. eu ligo porque já te vi. já te senti. porque sei que você sabe reconhecer.
e é tão mais dentro desses olhos. é tão mais nessa tua roupa natural. e ver vc escolher justo o contrário dói. perco um pouco das esperanças com o mundo. então me diz, é temporário?
eu não sei mais o que fazer.
eu não espero mais. eu estou em busca de paixão. vejo esse poço escondido, e quero que dele jorre belezas, vida. quero saber se vai jorrar. e se pode vir agora. eu não aguento mais esperar.
cheguei à grande dúvida. você existe ou fui eu que te criei?
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Sábado, Março 04, 2006
um reply, nunca enviado, porque não era merecido...
e não é?
terça depois de um belo pôr do sol jantei tarde uma massa e vinho, pretendia alongar a minha noite mas acabei chapando na minha cama. por uma imensa sorte, acordei às 5 e 55 e corri para ver o dia nascer. o pôr-do-sol é sempre mais bonito que o nascer do sol, as cores são mais intensas, e amo a forma do morro dois irmãos - sem eles os meus pores-do-sol não seriam os mesmos.
mas por algum motivo especial que desconheço essa aurora veio surpreendente. uma das coisas mais bonitas que já vi. soltei 'oh baby' do spiritualized no som da sala. porque é para mim a música, a obra de arte, que mais se aproxima de alguma criação de deus. tenho certeza que se todas aquelas cores viessem acompanhadas de música, se o dia nascesse com alguma trilha, só poderia ser essa.
fiquei de milhões de sorrisos no rosto. deslumbrada, sem fôlego nem palavras, humildemente reconhecendo a grandeza daquilo tudo. e agradecendo às forças maiores poder ter tudo isso na minha vida. agradeci por ter nascido aqui, com um mar para mim. mergulhada em tantas cores. acho que muita gente deixa isso passar batido.
papos da nova beta, totalmente hippie.
hey there.
como estão as coisas?
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Quinta-feira, Janeiro 19, 2006
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Quinta-feira, Janeiro 12, 2006
nonsense dos meus instintos. bobagens dos meus estomagos. eu preciso esquecer o que não é entendível.... deixar só que meu corpo sinta.
jazz é como o mar.
eu quero ser de jazz e mar. eu quero me apaixonar de novo. viver de paixões. por tudo e por todos.
quero que seja como era antes....
ah.....
.....
....
.... tudo ia muito bem até que.... num medo bobo eu travei...
acabei num limbo. reino meu das coisas perdidas. faço uma coleção dos cacos do que vivi. é, sim. essa é minha vida agora. a coleção de todos esses cacos. vivo num mundo sem tempo e nessa luta diária entre o bem e o mal me divido em duas.
de um lado. quero só o bem e amor. vou num barquinho flutuando pelas coisas minhas, pelos meus amores. quero não existir num êxtase das coisas da vida. dos amores em todas as esquinas, das ondas do mar. pura e leve de vento e de côco. polvilho e água salgada. não guardo tristezas nem rancores, tudo passará.
do outro. tenho um ego imenso de coisas, de posse e vontades. quero experimentar tudo e me levo fácil por aquilo que já conheço. quero pintar os quadros que comovam, conquistar os corações difíceis de conquistar. aqueles mais bonitos e disputados. quero reconhecimento, quero identificação em olhos como os meus, nas palavras inventadas que fingem dizer alguma coisa. não me basta a certeza no coração.
é no conflito entre flutuar pela vida encantada com o mundo ou comover e deixar marcas, que me perco. quando tinha o primeiro sentia falta da noção de um, era muito o todo e, não acostumada, me angustiei. mas quando voltei ao um, me repeliram as pequeninices de ser para mim, de ser uma só. oh. como queria juntar isso tudo. quero fazer coisas minhas, conseguir me expressar. falar o "sagrado" pelas minhas mãos mas sem precisar desse ego bobo de picuinhas que me comem e não me deixam focar no que é mais importante.
fora de foco. um blur. foi isso que virei. sou o próprio amor mal resolvido que eu tantas vezes inventei. porque queremos tanto ser lembrados? eu realmente não sei. eu insisto nos meus erros, sem saber bem porquê. sem saber nem querer. não gosto das minhas falhas, dos traços humanos. mas ao mesmo tempo não consigo não cair de amores por eles.
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Terça-feira, Dezembro 20, 2005
pro ano que vai nascer...
não quero mais me desentender.
.
coçeiras estranhas, ansiedades sem nome. cansei de tanto procurar.
quero ser louca e verdadeira. tomar porres de vida sem ressaca moral no dia seguinte. explodir para todos os cantos.
eu quero amor. eu quero leveza e ao mesmo tempo intensidade, sentir o mundo delicioso e forte como o vento. eu quero sempre que puder mergulhar no mar. eu quero ouvir tim maia e gil em noites quentes de verão. eu quero dar beijos gostosos, brincando, explorando os rostos e pescoços bonitos que me encantam. eu quero música boa, eu quero shows que me emocionem. eu quero viver seguindo a cartilha de vinícius. eu gosto de bares e papos complexos. eu gosto de estar acompanhada sem preocupações, tranquila, sem ter que falar muito, sem ter que falar nada. de tanta intimidade.
eu quero música. eu gosto de rock... principalmente o inglês. eu quero dias de chuva porque eles são tão bonitos. gosto de me deixar molhar, especialmente perto da praia, um gosto de sal, um gosto de chuva, nas gotas e no ar. e tantas gaivotas enfileiradas voando planando nas lhufadas de vento forte.
e quero também dias de sol e de praia. com jorge ben e samba. de sal grudado nos meus braços, desse mar lindo onde eu mergulho, onde eu me encontro, onde encontro todo o bom senso do mundo. onde encontro deus. e de volta na areia, no sabor magnífico de um biscoito globo me misturo em sal, areia e polvilho. num ponto só
eu gosto da noite e de jazz. quero poder girar de carro pela cidade toda a madrugada. eu gosto de bons amigos, e não sinto a necessidade de grandes galeras, de gente que fala muito da boca para fora mais vaidades do que simplicidades. não quero mais falar vaidades da boca para fora. gosto de noites quietas em boa companhia. mas não quero renegar as noites agitadas, carregadas de música. eu gosto de dançar. e não ligo se não tenho tanto jeito para sambar colado. sorrisos no rosto, um passo errado aqui outro certo ali, e aos poucos vou aprendendo.
eu quero boas mesas com as melhores companhias. eu gosto de chope. de mesa de bar. de mesa de restaurante, e almoços e jantares demorados. eu quero boa comida, eu gosto de cozinhar para pessoas que amo. eu gosto da troca. eu gosto do interesse, da sinceridade, da abertura, da paixão, do tesão, do amor, da escolha. não sei lidar bem com quem escolhe o contrário, me desencanto, morro de frustrações, então não quero mais quem não é, quem insiste em negar o que é, quem insiste em eximir-se da culpa, quem mesmo sem perceber prefere ser vítima.
eu preciso amar e pintar para viver. eu preciso da música para sentir. eu me apaixono por cidades, livros, discos. e pessoas. durante tanto tempo quis convencer, alcançar, cativar tudo. mas agora eu só quero quem também quer. cansei de encontrar só cinismo, reticências e outras coisas nas minhas buscas. talvez o problema seja eu, procuro no lugar errado. ou melhor, procuro demais.. deveria me deixar encontrar. é. vou deixar me encontrarem, que o mundo venha me encontrar em 2006. acho que pela primeira vez estou pronta para recebe-lo de braços abertos.
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Segunda-feira, Dezembro 12, 2005
aqui ia falar de john lennon. escrevi várias coisas mas nada coube. tinha reclamações (desnecessárias) desses invejosos vazios, essa gente boba que tem ciúme e inveja da fama de john. eles estão tão longe do alvo, que não quis perder meu tempo com isso, não agora. podia falar da música, mas me senti como uma crítica de arte, a pessoa mais redundante do mundo. as músicas falam sozinhas, não precisam de ninguém. podia também falar de tudo o que eu acho dele. mas não caberia em palavras, eu não acho as palavras. para mim ele é maior que o mito, maior que o homem, não posso explicar. não é que pense sempre nele, que sonhe com ele, que escute suas músicas ad nauseum. não é isso. mas quando o vejo, reconheço toda a sua imensidão e grandeza.
muitos se comem de inveja, e muitos o odeiam porque não conseguem entender. mas coitadinhos, são tão pequenos, preferem fechar os olhos e não ver o que john realmente era. eu consigo ver, mas não consigo falar dele, porque tudo o que escrevo, parece pequeno, ou melhor, parece muito simples, afinal são só palavras, e tem certas pessoas, certas coisas, que não cabem dentro de nenhuma palavra. elas são muito maiores que isso. e ele era muito maior que isso.
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Sábado, Dezembro 10, 2005
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Quarta-feira, Dezembro 07, 2005
eu ainda gosto das nuvens que ficam em cima da linha tão perfeita do horizonte. o contraste delas com o azul verde do mar, me faz pensar em turner, em pinturas. é, gosto dessas nuvens bem lá longe no horizonte porque elas foram pintadas, não são reais. mas não sei mais falar das nuvens pintadas em cima do mar. não sei mais falar de nada. eu só consigo abraçar o todo. minha cabeça, que já era abstrata, agora mesmo se soltou de qualquer geometria, de linhas que começam e acabam. e palavras são feitas todas de linhas enroladinhas em forma de letras. escrever alguma coisa agora, só se for assim...
oegsueooraheorgeahahaooogergaoehaoecagekaoe.
enlouqueci de tantas loucuras, de tanto ar na minha mão. sou furacona, rodo fazendo vento. destruindo tudo ao meu redor, tudo passa a ser abstrato à minha volta, nada é mais concreto, tudo é ar. não sei mais dizer onde começo, onde acabo. aperto o meu rosto com força para sentir que ainda estou aqui, que existo, que meus nervos sentem, e que a dor é minha ainda, e de mais ninguém.
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Quarta-feira, Outubro 26, 2005
um texto bem preguiçoso e não muito inspirado, pra registrar os acontecimentos desse fim de semana
01
vincent gallo me deprimiu. não sei bem como foi, estava ali encantada, apesar dos bêbados barulhentos, da gente mal educada. o som baixo e as luzes muito altas que acabavam com a atmosfera.
nossa! o vincent estava logo ali, mal podia acreditar, excelente surpresa, nunca poderia imaginá-lo aqui. e não sei bem como, mas à medida que o show avançava e os bêbados incovenientes deixavam o lab, fui sendo hipnotizada por mr gallo. acabei o show deprimida. num surto até. e por isso não saberia dizer se gostei ou não. ou ele foi muito foda, porque ele conseguiu passar com as bonitas músicas justo as aflições e angustias que motivaram a sua criação, ou foi uma merda porque eu saí de lá completamente down.
era o oposto da menina louca, eufórica, que lá tinha entrado. depois da monotonia sem graça de kings of leon, com algumas cervejas já sacudindo dentro de mim fui facilmente embalada pelo show do strokes. ah! os meninos foram no ponto, era justo aquilo que esperava, uma banda carismática, simpática, de boas músicas, ótimas pra cantar junto, empolgantes. mas que ao mesmo tempo não muda a sua vida. no fim do show, tensa com a possibilidade de perder meu vincent corri como uma louca desembestada, sem pudores nem timidez pelo village, durante take it or leave it, só pra descobrir o chato do jamie lidell no meio do seu show. voltei correndo para o stage e peguei todos os bis. ufa! de lá voltei para o lab saltitante e feliz. mas depois de vincent gallo, saí do mam transtornada.
pizza divina na madrugada e melhorei um pouco. voltei andando com johnny pelo calçadão. e putz! que maravilha. a praia quase deserta, o rio parecia uma cidade fantasma, por ali só alguns poucos loucos que já caminhavam pela orla. um vento estranho, daqueles que traz mudanças batia bagunçando os cabelos.... um pouco de rosa começava a despontar no horizonte. o vento morno, as luzes, cores, tudo parecia um filme, me lembrou vincent gallo, and it felt good. recuperei a minha paz.
02
sábado de acordar tarde, pegar praia com chuva, nadar no mar e na chuva - oh so good. lembrou minha infância. - a água salguada lavando qualquer coisa de ruim que pudesse ter ficado dentro depois de uma noite tão intensa. biscoito molhado, esfiha molhada, confusão de gostos salgados na boca. almoço e papos para passar o tempo. e era de novo hora de tim. nessa noite, shows de duas bandas muito hypadas que nunca me disseram muito. estive casual pelo lab, no expectations within me. depois de suportar aquela combinação esdrúxula de estilos do fraco lado 2 estereo (porque não domenico +2? infinitamente melhor) fui acompanhar johnny no burburinho para esperar arcade fire. e confesso, me impressionei. fiquei arrepiada com wake up.... não sei bem o que foi. nunca achei o disco todas essas coisas, mas acho que a energia da banda no palco mais (e isso ao meu ver foi essencial -) o entusiasmo do público cantando junto me surpreendeu (não esperava, tá, tinha muito indiezinho por lá - aliás, rrarrammm.. mmmm, nah, melhor deixar quieto. - e muitos não cariocas, fazia até sentido). o show foi excelente mesmo... achei que em duas músicas a bola caiu um pouco, uma foi brazil (versão em inglês do filme do t. gilliam), a outra não sei o nome. foi tudo muito intenso e curto, e me fez olhar a banda com outros olhos. (fiquei babando ao descobrir o lindo site deles, e gosto das letras, dark e fantasiosas - elas criam nice and interesting images in my head). achei que o wilco ia penar pra conseguir levantar o povo depois daquilo. mas não, músicos experientes, carregaram bem qualquer responsabilidade que tenha ficado no ar e fizeram um show gostoso. pra mim foi meio whatever, eu só gosto mesmo de algumas músicas e fiquei ali empolgadamente zanzando torcendo para ouvi-las. jeff tweedy achei fofo, e por mais que estivesse exausta, fiquei até o fim dançando, não sei bem porque .o(talvez tenham sido as cervejas.)
voltamos pra pizza. louca, inventei de voltar andando de novo. pobres pernas minhas, tão acostumadas ao ócio sofreram com essa súbita exigência de poder e resistência. em ipanema fomos molhar os pés na água. o dia já tinha chegado, vontade de nadar no mar. e por que não? nadamos. na praia vazia, éramos os únicos no meio daquele mar grande. heaven. holy moment com meu maior companheiro, melhor momento da noite/dia. delícia.
03
acordei exaurida de forças. mau humor extremo com esse referendo palhaçada, depois de votar 9, deixei john na rodoviária. voltei feliz pelo rio antigo e abandonado de domingo. descansei o máximo que podia para ter forças de noite. acabei chegando no meio do show do television, e fiquei feliz ao perceber que não tinha perdido nada. chatérrimo, tocaram rock de velho, nem prestei atenção. depois de ordens num alto-falante, sentei-me na minha cadeirinha para esperar elvis. e aí ele veio. ó! o furacão.
o que é elvis costello?
juro que não esperava. esperava coisa mais calma, ficar ali sentada na minha cadeira curtindo a voz do homem, me divertindo com um eventual hit antigo. mas elvis costello veio como se tivesse 20 anos a menos. ele parecia ter 20 anos a menos (ao contrário das múmias do television). chamou todos para a frente. uma coisa a presença de palco, o carisma, elvis shines. era uma lição de como se faz um show, e o que é ser um frontman. e assim, sem precisar de malabarismos, só com talento e coolness. conforme o show ia passando, mais eu ia me encantando, me apaixonando. o inglês já batido pelo tempo, meio careca, gorducho, de dentes separados, foi ficando lindo lindo e lindo. ele chegava perto da platéia e seu rosto e seu corporal pedia "praise me!" e como não? um deus. e a gente aplaudia feliz a grandiosidade de elvis. woooo!
não esperava tudo isso, mesmo. elvis e sua banda, tocando muito, flutuando por diversos estilos, transformavam as músicas sem deturpa-las, só dando um charme, um molhinho delicioso. ah! elvis e suas guitarras. elvis e seus clássicos - ah é! porque ele tocou uma porrada deles! e eu cada vez mais feliz. com um sorriso bobo de olhinhos brilhantes vidrados em elvis. queria mais. pena essa idéia idiota de mesas atrapalhavam o posicionamento e a minha mobilidade. mas elvis me fazia esquecer tudo isso. eu rezava quietinha pedindo shipbuilding, please please please. para minha decepção no bis ele voltou com she. mas logo corrigiu emendando outras delicias. e finalmente......... não tive shipbuilding mas tive i want you. nossa! palavras não podem descrever o que foi i want you. por algum segundo achei que poderia desmaiar de tão bom que era, não sabia nem como reagir àquilo. fiquei boba ali, no ar. i want you. i want you elvis! ápice do festival, melhor show e melhor música. tudo acabou assim perfeito. não poderia pedir mais nada.
=
oh.
acabei pegando um outro show por acaso. ontem o sol apareceu, e eu resolvi dar uma corridinha para pegar uma prainha de tarde aqui perto. lá pelas tantas vejo uma concentração em volta de cadeiras caesarparkianas. lembrei então do meu amigo que mencionou o comentário dos kings of convenience durante o show no domingo, falando que tocariam na praia nessa terça. fui conferir e era mesmo. cheguei e encontrei umas pobres pessoas indies vestidas suadas que cercavam felizes o duo norueguês. mas todos eram só sorrisos, me comovi até, estavam todos tão felizes... sentei pertinho deles, e mesmo ali era difícil ouvir de tão baixo. enfim, coisinha gostosa mas total música de fundo. zero de impacto. os meninos são fofos though, mas sabe, só fofura não me ganha não..... eles deram um break, eu fui-me embora, tava na minha hora.
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Quinta-feira, Outubro 20, 2005
eram dos mais lindos que já tinha visto, olhos azuis esverdeados, expressivos, sorriam com vontade, diziam tantas coisas, tudo aquilo que ela queria e precisava ouvir. encantada, beijou pela milésima vez a boca deliciosa. era assim que melhor diziam as suas coisas, nos beijos. era quase como uma língua nova, só deles, inventada no instante em que se conheceram. a precisão com que os lábios se tocavam, a delicadeza da aproximação, o timing perfeito. os olhos nos olhos, as bocas de sorrisos, os narizes tão amigos. encaixe justinho, o melhor que já encontrou.
x
de madrugada. intimidade repentina, nudez estranha mas tão boa.... de uma entrega e exposição que ao invés de intimidar conforta, preenche. olhou para ele e ficou encantada com a sua beleza. ele foi ficando mais bonito ao longo da noite, quanto mais adorável, quanto mais se beijavam, quanto mais revelava, mais bonito ficava. e ali de repente na sua cama, viu ele tão lindo. uma das pessoas mais bonitas que já tinha visto. e assim, num relâmpago, ela sentiu um amor imenso por ele. aquele menino bonito, tão forte mas ao mesmo tempo tão vulnerável ao seu lado, na sua cama, nos seus abraços. ele dormia um sono leve enquanto ela acariciava lentamente seus braços, sentindo as veias de homem que insistiam em saltar. acabou dormindo também.
quando acordou, amou-o mais ainda. explorava todas as partes esquecidas do corpo dele..... principalmente as que ela não enxergava no seu corpo. o osso em cima do ombro; o buraco que ligava o peito ao pescoço. os pêlos em volta dos mamilos.... os músculos. deitava a sua cabeça no corpo dele e ouvia seu coração bater no meio do peito, enquanto o via reverberar na sua julgular. tentava assim senti-lo real. tentava tentar achar que as pessoas pertenciam aos seus corpos, que acabavam ali. e assim, enquanto ela tentava sentir e entender as coisas, ele a beijou com carinho, sorriu um sorriso aberto sem medidas, delicioso, e com seus olhos disse tanto em silêncio, um olhar sincero que entrou tão fundo dentro dela, que não precisou entender mais nada. com seus olhos ele a cativou para sempre. se beijaram e disseram tudo o que queriam dizer, se tocaram e disseram tudo o que precisavam dizer, se olharam e confessaram tudo o que podiam dizer.
a luz do dia entrou pela janela. ficou encantada com seu pelo dourado. os olhos azuis, a pele queimada, o corpo magro na medida certa, confortável e macio, a voz grossa e doce, a gentileza e delicadeza. a boca carnuda de sorriso largo e olhar apaixonante. ela foi dele e ele foi dela, numa manhã de domingo, num quarto esquecido. no meio do nada.
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Quinta-feira, Setembro 29, 2005
uma leve excitação corria pelas suas veias. tinha já perdido toda a determinação do dia anterior. logo ao acordar se sentiu mais instável, como se um vento forte batesse por ela constantemente, balançando os seus joelhos. tentou se concentrar, tinha na cabeça decoradas as posturas que deveria aplicar, buscou injetar táticas, estratagemas, alguma pitada de comportamento racional no seu jeito instintivo e emotivo de ser.
e de repente a hora chegou.
foco. um, dois, três. empurrou a cortina. vestiu sua cara séria. compenetração.
mas do outro lado, tão imediatamente e na maior naturalidade, foi recebida com um sorriso tão sincero e encantador que foi-lhe impossível aplicar qualquer tática que exigisse algum tipo de frieza ou descaso. foi acolhida num abraço carinhoso que comprovava o sorriso. e então já numa entrega de quem não consegue muito esconder seu coração, com os braços compridos abraçou com firmeza amorosa. dando o beijo aonde costumava dar. no cangote.
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Sexta-feira, Setembro 23, 2005
vem vambora. não quero dizer mais nada, quero viver tudo que sempre esteve ali na beira, pronto para acontecer. não é mais hora de adiar, estou doída de tanto me segurar na mesma posição, prestes a mergulhar na piscina, congelada com os braços esticados para frente sem ter coragem de soltar o peso do meu corpo e me molhar inteira.
resolvi abraçar tudo o que sou e aquilo que sinto, cansei de fingir não ver quem eu era, quem tenho que ser, o que quero para mim. as luzes se acenderam, agora andar sem cair é mais fácil. mas ao mesmo tempo confesso que fiquei cega com a claridade, meus olhos ainda estão se acostumando. e tantas possibilidades me desnortearam e não sei mais o que ser, o que fazer com tanto que me aconteceu.
pintar era mais fácil, era o jeito que eu tinha de escapar, agora para onde escapo se posso correr em todas as direções? fica impossível escapar, tenho que ser nua e crua e correr por todos os cantos. o medo não cabe mais, a excitação toma conta. uma euforia sem explicação onde me sinto como um balão grande de ar colorido que inflado sobe aos céus sem controle.
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Quarta-feira, Setembro 21, 2005
nesse fim de semana eu fui pro sítio.
confesso que não estava tão animada quanto costumo estar quando vou para lá... estou em fase estranha da vida. a mais estranha talvez, porque me parece ser a mais consciente. a mais iluminada. sabe a sensação de estar dormindo lerda num quarto escuro e de repente alguém arregaça a cortina de surpresa e tudo fica tão claro, mas tão claro que você não consegue enxergar direito?
era justo assim que estava me sentindo, fui mergulhada num clarão tão grande, uma luz tão forte, que fiquei cega. não sabia o que fazer, tive inclusive horas de desespero. sensações muito intensas onde muitas vezes me vi helpless, achando que tinha enlouquecido. espiritualizada. não enxergava mais os limites das coisas, e comecei a duvidar mesmo da existência e da importância do que até então tinha vivido. do que estava vivendo. de quem eu era.
foi por isso que tive medo de ir para o sítio, e lá me desligar ainda mais de tudo... oras, foi lá que eu dei um dos primeiros grandes passos no encontro dessa luz. lá, dentro daquele mundo tão meu, cercada por morros, encantada pelo rio, com pés na grama e um céu tão grande, eu tinha medo de sair flutuando. subindo subindo pelo espaço misturada no vento. e ninguém mais então saberia de mim.
mas o sítio é o sítio, não sei como pude duvidar de seus poderes. lá, apesar de todas as dificuldades, mais uma vez fui salva.
quando chego no sítio não entro imediatamente na sua frequência. preciso abaixar as expectativas, a velocidade, ir me soltando das coisas que deixei para trás. conforme as horas passam vou me tranquilizando, melhorando... mas muitas vezes só consigo mesmo entrar no clima depois que o johnny chega. primeiro porque deixo ainda mais para trás as aflições tagarelando nos ouvidos dele, enchendo a paciência do pobre menino que escuta com santa paciência todos os pequenos detalhes que não consigo omitir. depois, porque se revelo insanidades como as que estavam me afligindo dessa vez, encontro nele um porto seguro de bom senso, compreensão e mesmo identificação.
dessa vez não foi diferente, conversei com ele, me acalmei. me distraí com o carbonara clássico de sextafeira, um po' di vino também. e na confusão das crianças, brincando sem prestar muita atenção, tentava aliviar o peso do que estava tão enraizado dentro de mim, a aflição escondida atrás da fachada feliz. aos poucos todos foram dormir. corri exagerada pelo gramado tentando me livrar de alguma coisa que não sabia o que era, não consegui. larguei despreocupadamente meu corpo no chão, arranjei um aconchego bom nos braços do meu maior amigo, e fiquei ali estirada sem conseguir ver as estrelas, escondidas atrás de uma consistente camada de nuvens, tentando organizar idéias que flutuavam pela minha cabeça.
geralmente quando o sábado chega já estou totalmente dentro do sítio, mas dessa vez não foi tanto assim. estava ainda um pouco distante. passei o dia inteiro procurando respostas. sem entender o que me acontecia. esperava e esperava por alguma resposta, alguma surpresa, algum laço que me prendesse ao chão. mas ele não aparecia e minha aflição começou então a me irritar. resolvi tomar providências, silenciei a minha cabeça e resolvi só sentir com meu corpo. só então comecei a encontrar a liberdade que procurava. enquanto escurecia ouvia músicas queridas abandonadas no deck que me é tão familiar, curtindo o frio e o balançar das coisas. porque as coisas não precisam fazer mais nada, desde que sempre se balancem ao vento.
mais um jantar, esse ainda melhor que o da noite anterior, fettuccine com camarão e funghi. conversas empolgadas por todos os cantos. depois que todos tinham partido para cama, eu, leve de vinho tinto saí para fora da casa. o céu que passou a noite inteira coberto estava agora descoberto na área em volta da lua, e finalmente pude aprecia-la, maravilhosamente cheia. e por algum motivo especial, que não precisa ter nome nem ser justificado, sua luz parecia estar 10 vezes mais forte que o normal. o céu ficou todo azul, um azul entre o claro e o escuro, tão bonito mas tão bonito que não se pode nem dizer quanto. com johnny ao meu lado desci em direção ao rio andando por entre os eucaliptos bonitos que eu gosto tanto. a luz da lua iluminava tudo, não exisitam nem cabiam luzes artificiais ali. e tudo era azul, um azul que respirava um pouco prata, do brilho dela que vinha do céu.
eu tinha passado o dia inteiro na beira do rio louca para me jogar dentro dele, pensei em cair acidentalmente algumas vezes, mas não tive coragem. achava que não teria graça se fosse fingido. seria patético - nem mergulho nem tombo - e fazia frio, era um dia sem sol, me faltavam forças. mas ali de madrugada debaixo da lua cheia não pude resistir e quis mergulhar ao menos os meus pés. descia a escadinha do deck quando encontrei com minha mão esquerda uma teia de aranha imensa. tomada pelo terror e sem nem pensar, num berro soltei a mão num desespero escandaloso de menininha e caí numa pose ridícula dentro do rio de madrugada. não demorei muito pra perceber que delícia era estar ali. me desfiz então do peso da roupa excedente e me entreguei inteira à ele. não precisei de muito esforço para convencer o johnny a entrar também. estava frio mas eu mal conseguia senti-lo tamanha a euforia. conseguíamos enxergar tudo, e nunca nadei tão livre e sem medo naquelas águas.
deus, como foi bonito ver o joão iluminado de azul da lua, molhado de rio. como foi tão bom estar molhada de azul da lua, iluminada de rio. e foi justo ali. bem ali que tudo voltou a fazer sentido. que vi que não era porque estava vivendo de um lado das coisas que estava renegando o outro. era tudo a mesma coisa. não vivo uma ilusão mas sim a ilusão. e porque então renegar uma consciência que só trouxe frutos? se posso ter a lua cheia para mim, se posso mergulhar e ver todo aquele azul.
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Sexta-feira, Setembro 16, 2005
nunca fui tão franny na minha vida como agora. preciso de um zooey urgentemente.
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Quinta-feira, Setembro 15, 2005
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Sexta-feira, Setembro 09, 2005
pelas mãos escuto segredos mais fundos. na pele mais fina das minhas palmas, nas marcas das linhas da minha vida, escuto melhor as coisas de fora. consigo quase tocar o que vai além do físico, os lugares difíceis de alcançar. e não é mentira, muito menos exagero, só é maior que essa letra a, que acabei de digitar.
e assim, quando nossas mãos se tocam e se estudam, conseguimos ouvir as coisas que as bocas não estão dizendo. os nossos segredos mais íntimos nos são revelados. é uma nudez tranquila e confortante. que de tão grande não cabe em palavras.
quando a cabeça permite a entrega ao momento, quando a força do que é sentido é maior que qualquer razão, num clique e brilho raro, olhos ficam transparentes, e é impossível esconder o que acontece dentro. uma nudez vibrante que nasce onde a vontade foi maior que a razão. uma entrega incontrolável, uma vontade de ser descoberta. esse brilho nos olhos é tão forte que deixa marcas definitivas para aqueles a quem o brilho foi revelado. vira inesquecível pois no mesmo instante a imagem se queima dentro da gente - uma tatuagem interna que guardamos com carinho e fascinação num reconhecimento silencioso de toda a grandeza daquele momento.
no cantinho embaixo do ombro, um pouco acima do peito esquerdo. escuto uma onda. ela entra no meu corpo por ali, bate ali. e de repente então sei, numa certeza quase absurda. sei do futuro e do passado, sei do presente, mesmo de quem está longe. sei das tristezas e das felicidades. sei dos amores. sei do Amor. sei. explicar não consigo, mas sei saber. dum jeito institivo... numa onda que flutua embaixo da minha cabeça. é um saber alheio à razão e à lógica... é um saber quase primitivo das coisas que não cabem dentro das palavras.
e foi assim que vivi os grandes momentos da minha vida. foi assim que numa noite dissemos o que não podemos dizer com as palavras. nos revelando em silêncio, depois de tanta saudade. e foi assim então que numa tarde entre bonança e tempestade encontrei o olhar brilhante nos olhos mais bonitos que já conheci. a cena mais bonita que já vi na minha vida, inesquecível... que agora vive gravada atrás dos meus olhos, e lá sempre estará. exisitirá eternamente na minha memória. e assim então eu soube do amor que me trouxe paz. nele meu peso diminui, com ele subo um pouco no ar, inflada de sentimentos que não sei descrever. sei e por algum tempo não enlouqueço das paranóias da minha cabeça. nas doideras das palavras que caem vazias no chão aonde piso, no carpete onde meu pé encosta todos os dias de manhã.
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Quarta-feira, Agosto 31, 2005
eu deitei na cama, quase dormi e ouvi meu coração bater forte dentro de mim. imaginei as membranas finas fazendo força contra o peso de todo o meu corpo largado sobre a colcha e o colchão. como o de uma criança que exausta de brincar se abandona em cima de qualquer superfície macia e familiar, e se entrega para o além. mas eu não consegui, algum senso de dever. ou ao menos de pequeno ajuste me despertou e levantei rápido no medo de me perder de vez. ... acabei me sentindo mal, despertei mais do que queria, desconectada até. e fiquei frustrada ao ver o lixo que produzi à minha direita. uma tela de pingos e respingos de quem não tem conseguido mais pintar. de quem tenta mas não mais é.
ah, e por que? por que? talvez tenha perdido o dom. dei de libriana, e mudei de interesse, de talento. pois librianos mudam assim num piscar de olhos, num relance. e estão sempre insatisfeitos. porque pensando motivos, inumerei vários, mas não chego a nenhuma conclusão. tenho uma possibilidade recorrente, mas não gostaria que fosse ela - me parece tão fora do alcance! não deixo para trás e nem consigo voltar ao que era antes. frustração do início ao fim. e por mais que tente tudo, por mais que me entregue a todo o resto, não consigo me desligar de lá.
às vezes invento de acreditar no que era antes. e por um segundo, dois, sete, nos minutos em que o vento quente bagunça os meus cabelos e cobre o meu rosto, eu me inspiro e poderia pintar o mundo num instante. mas estou longe da tela, e no tempo que levo para reecontra-la já perdi tudo. esvaziada de qualquer coisa. bloqueada. chego aqui e o clima não encontro, o meu rosto eu não encontro. meus porquês eu não encontro. sou estranha nas terras que eram minhas, meu nome mudou, meu espelho reflete outra pessoa. minha família não me conhece. meu cachorro morreu longe uma morte triste. e os meus amigos, cadê?
não encontro. não desanimo e aproveito os dias como nunca. sou menina carioca de repente. das ondas do mar. me pego radiante no samba. ando pelas ruas com ares de dona, sou dona disso tudo, dessas ruas, das pedras na calçada, das árvores inclinadas, dos prédios das décadas passadas. gosto do inverno com cara de outono, das cores pálidas e das folhas no chão. ali me encanto. me deslumbro sozinha com a vida que insiste em ser bonita e não consigo contesta-la. reclamar do que não é? tudo parece estar sendo, mas não sei bem como. nem para quem. não sei se consigo achar que ela é bonita, se ela não o é para você.
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Terça-feira, Agosto 23, 2005
eu segurei o vento na mão apoiada na janela enquanto o carro corria, como fazia quando era criança. e me senti viva como há tempos não sentia, sozinha e completa ao mesmo tempo. de certezas tão incertas, que posso segurar como segurava o vento com a minha mão. uma mentira que parece verdade ou uma verdade que parece mentira?
o que, senão os dois ao mesmo tempo?
é como pintar o mar. qual mar é o mais bonito, aquele de todos ou aquele só meu? ah. o mar eu ainda não ousei pintar. mas já pintei amor, as lágrimas azuis que nunca foram minhas. e não sei dizer quais foram mais reais, as que enxerguei ou as que molharam o rosto que amei.
e como, se foram as duas ao mesmo tempo?
uma idéia é coisa fácil de se ter. num segundo tenho uma, no seguinte venho com outra. e qual delas que se encaixa naquele exato cantinho? quantas cabem? uma, duas, três, mil. um infinito num espaço tão pequeno. porque ali medidas não cabem, palavras não cabem. e então o que é que posso segurar na mão? o que é que é meu? só uma de tantas idéias.
e qual, senão aquela que escolhi que fosse?
perdida. existo de viver nessa fé. fé em tudo que vivi, no que existe e que não se pode tocar. fé no que fui e no que senti. pois é justo quando resolvo ser são tomé que não sei mais nada, e invento a minha própria desgraça. deixo de existir e não me resolvo. não tenho mais encontros e desencontros na madrugada, perco as declarações escritas na areia para as estrelas, não sei mais de saudades nem desafios. sobro, desorientada, um pedaço, um resto. que sem saber ser, não existe.
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Sábado, Agosto 20, 2005
acabei de ver um filme italiano muito gostoso, mediterrâneo. ele é sútil e um pouco superficial - ou melhor, usa uns clichês disfarçados para passar a idéia sobre a qual o filme se montou. mas ao mesmo tempo tem entrelinhas interessantes, e fala da vida, de escolhas. mostra essas supostas responsabilidades que a gente acha que tem que assumir, mas que no fundo são mesmo mentiras. enrolações de gente que não tem idéia do que está fazendo, e que ao mesmo tempo - e justamente por isso, para justificar - tentam empurrar as enrolações deles pela nossa goela. e aqueles que inicialmente parecem estranhos ou covardes, ou fugitivos, são no fundo os mais corajosos que ousaram desafiar a 'razão', o óbvio. são estes os que de fato conseguem se achar na vida. enquanto os outros viverão sempre de dar cabeçadas por aí.
e não sei. já tinha visto o filme antes mas hoje ele foi especialmente bonito. provavelmente por conta do meu dia. acordei ressaqueada não tanto de álcool mas de sentimentos, de energia ruim que jogaram em mim. mal dormida depois da noite banhada de lágrimas, de tantos desencontros e desentendimentos, que me deixaram ainda mais perdida sem saber quem era, e muito menos para que ser. depois de tanto desgaste, desabei sozinha dentro do meu carro e girei pela madrugada da cidade bonita sem nem conseguir reparar no que acontecia ao meu redor. uma mão no volante outra no telefone com meu amigo - o maior deles, meu super hero - e tentava achar sentido em tudo o que era, e no que tinha construído. em casa, de madrugada, consegui me acalmar. e acordei já mais tranquila, mas ainda estava cansada e sem forças de tudo o que tinha acontecido. fui então até a baixada atrás daquilo que não conseguia enxergar mais.
horas de espera e finalmente chegou a minha vez. e a vidente que fala do presente e não do futuro, me livrou das aflições. ela era uma pessoa séria. não era esquisita, nem sensacionalista, nem carregada como a maioria dessas ciganas. na verdade nem era cigana. era uma mulata interessante, que falava preocupada mais em ajudar do que em deslumbrar. sei que as vezes é difícil acreditar nesse tipo de coisas, mas impossível não acreditar na patrícia. que disse informações que ninguém poderia saber. não abri a boca, estava longe de casa, e ela soube dizer de nomes à sexos, e tantos detalhes de vida, tão específicos, que não poderiam vir por chute, nem aleatoriedades. então bobos os que não acreditam, pois acreditam só no concreto, e perdem todos os sabores e mil possibilidades do desconhecido.
ela ajudou porque me contou o que todos os meus instintos já me diziam. foi quase um atestado de não loucura que ela me deu. quantas vezes achei estar louca, não confiando totalmente no que o meu coração dizia. me perdia nas dúvidas sobre o que tinha vivido e no que sentia. quanto daquilo não seria invenção minha? a falta de comunicação à minha volta estava me consumindo. não entendia mais nada, não conseguia me encontrar. e justamente por isso quis ir lá. ouvir nomes, para não abrir espaço para a dúvida, para nenhuma suposição. precisava de alguma afirmação que viesse de fora de mim, e se não estavam vindo pelos canais convencionais, que viessem por outros.
e ela viu tudo sem que eu tivesse que dar um a. e quando fiquei sem graça, soube exatamente do que estava falando e me tranquilizou do melhor jeito possível. ela viu quem estava sendo, no que tinha errado e acertado. definiu todos ao meu redor com grande precisão. e ao invés de me confortar com previsões promissoras, fez melhor, cobrou de mim atitudes nessa estagnação do meu presente. deixou escapar só duas previsões. uma, a maior de todas, que sempre foi uma grande certeza, ela disse acho que por ser inevitável. e a outra, a mais complicada de todas, escapou numa hora de distração, e talvez fosse melhor se não soubesse dela. mas acho que foi bom que soubesse sim, foi justo ela que me tranquilizou, que me deu a certeza de não ter sido em vão. foi a peça que fechou o quebra-cabeças, que fez com que eu me reencontrasse. sou de novo uma só. não mais mil pedaços desperdiçados de uma menina inventada.
então mergulhei no mar mexido de vento. encontrei amigas queridas com quem dividi grandes histórias. andei entre livros que amo tanto, me chamaram de grande rubronegra - que de fato já fui, e talvez ainda seja mesmo que displicentemente - e aí reencontrei outra parte de mim que estava perdida. contei causos e soube finalmente me enxergar. e no filme, simples, italiano... achei um grande conforto que há muito tempo tinha deixado para trás. o da certeza dos holy moments em boa companhia. e agora posso viver esse novo momento na certeza de que mais na frente, no seu devido tempo, eu vou chegar aonde sempre quis estar.
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